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Uma história de cachorro

  • Foto do escritor: Mônica Cyríaco
    Mônica Cyríaco
  • há 11 minutos
  • 5 min de leitura

Hoje vou contar uma história de cachorro, uma história da cachorra Baleia, pra ser mais específica. Senti vontade de falar dela, porque li sobre o cachorro Orelha e fiquei triste.

Cachorra Baleia do filme Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos
Cachorra Baleia do filme Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos

Era no fim dos anos 90, muito antes de internet, redes sociais, jogos online e desafios ( tudo me parece agora ter acontecido num outro mundo) , trabalhei com turmas de Jovens e Adultos no município do Rio. Jovens e adultos trabalhadores que precisaram largar a escola cedo, parcamente alfabetizados, com inúmeras histórias de vida, muitos deles migrantes nordestinos e alguns internos do sistema Degase, que saíam à noite, escoltados, para estudar. A escola era um Ciep na  periferia de um bairro periférico da Ilha do Governador _ uma periferia da periferia.


Os alunos tinham aulas de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História/Geografia de 2ª a 5ª, 1 disciplina por noite. Às sextas, nos reuníamos em planejamento, enquanto as turmas tinham aulas de Inglês e Artes. Nessas reuniões de sexta, após uma avaliação diagnóstica dos alunos, criamos um projeto de leitura de textos literários chamado de Compartilhando Leituras, em que a leitura diária seria o ponto central da nossa prática pedagógica.


A escolha dos livros passou pelo fato de termos identificado nos alunos matriculados sua origem majoritariamente nordestina e que o projeto seria mais efetivo quanto mais pudesse conversar com a história social dos alunos. Decidimos, então, por adotar Capitães de areia, de Jorge Amado e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Sabíamos que seria desafiador adotar dois clássicos da literatura para alunos que nunca haviam lido nada, mas jamais imaginaríamos o quão produtivo e gratificante aquele projeto se mostraria.


Todos os dias os alunos e os professores leriam durante os 20 primeiros minutos de todas as aulas, acompanhados de um dicionário para uso eventual. Cada aluno tinha um ritmo diferente de leitura, então, numa tentativa de organizar minimamente o processo, lemos juntos os primeiros capítulos. Ao fim dos 20 min, havia um espaço aberto para perguntas que os alunos quisessem fazer. O projeto foi um sucesso, os primeiros 20min se tornaram 40min, com os alunos querendo a cada dia mais tempo de leitura, quanto mais avançavam nas histórias. Os corredores da escola eram puro silêncio durante aqueles minutos. Quando fechávamos os livros um mundo de comentários se abria, eles queriam comentar sobre as situações pelas quais as personagens passavam, o que sentiam, de que lembravam.  Como exemplo, uma aluna nos contou que em sua casa, na caatinga, não havia luz e que usavam o facheiro_ uma planta que aparecia num dos capítulos de Vidas Secas _ para iluminar a casa à noite. Como nós, sudestinos, não conhecíamos a planta e não havia Google pra pesquisa, na noite seguinte, durante a aula de Ciências, ela nos brindou com um cartaz em que havia desenhado o cacto facheiro e nos explicou sobre o gel que havia em seu interior e que podia mantê-lo aceso por várias horas. Uma aluna de aproximadamente 50 anos, na frente da turma, dando uma aula sobre uma planta de um bioma absolutamente desconhecido pra todos nós, foi um dos momentos memoráveis daqueles dias.


Mas, e a cachorra Baleia?


Esse foi o momento mais incrível vivido por nós naquele tempo. A leitura estava avançada, estávamos quase chegando ao final do livro. Naquela noite, como de costume, coloquei os livros sobre minha mesa, cada um que chegava pegava seu exemplar em silêncio e começava a ler. Um tempinho depois escuto um barulho de alguém fungando, olho e vejo uma aluna com os olhos mareados , ela me olha e me pergunta “professora, a Baleia? Não acredito...” Fico meio sem ação e vejo uma outra aluna que também passava pelo mesmo ponto da leitura de cabeça baixa. Pela primeira vez aqueles alunos passavam pela experiência do choro silencioso que a literatura pode proporcionar. Era emoção, era educação das sensibilidades, era identificação. Por alguns momentos eles viveram o dilema de Fabiano, sofreram com o desespero das crianças, quiseram tapar os ouvidos com os ombros, como Sinhá Vitória e olharam a vida com a incompreensão inocente dos olhos da cachorra Baleia.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes

 

Ficamos envoltos em tristeza quando soubemos do sofrimento a que foi submetido o cão Orelha, um cãozinho idoso, comunitário, fiel a todos os seus no seu carinho e na sua docilidade, como todo cão vira-lata. Mais difícil ainda foi saber a respeito dos prováveis torturadores de Orelha, adolescentes entre 12 e 17 anos, todos jovens bem-nascidos que passavam as férias no litoral de Santa Catarina. O adjetivo “prováveis” está aqui porque segundo notícias recentes, ainda não há provas concretas a respeito da participação dos adolescentes, o que se sabe de verdade é que além da agressão ao cachorro, houve coerção e ameaças ao porteiro do prédio por parte de parentes de um deles. Agora o porteiro já afirma não ter provas e sim convicção de suas culpas...


Esse episódio lamentável ilustra bem a sociedade de castas existente no Brasil, os privilégios que têm os garotos brancos de classe média, tratados como suspeitos, com direito à investigação e posterior processo, acompanhados de juizado de menores_ direitos civis que os garotos pretos periféricos não conhecem. Ficamos atônitos nos perguntando onde estão os bons sentimentos desses jovens, queremos saber onde estavam esses pais e responsáveis que não viram isso acontecer, que educação esses adolescentes receberam, o que faríamos no lugar desses pais, desses vizinhos. Por que teriam feito essa agressão? Desafios na internet? Puro vandalismo e crueldade?


De repente o tribunal das redes sociais se abriu e nós, os juízes de tudo, já temos os culpados   (com fotos divulgadas nas redes), temos a sentença, se bobear há pessoas que até topam ser os executores da pena. É tudo tão triste e tão terrível... fiquei pensando na cachorra Baleia.


Tenho a sensação de que aqueles meus leitores lá do Ciep João Mangabeira, educados literariamente, jamais torturariam cachorros, pessoas em situação de rua, mulheres, crianças. Eu acredito na arte como capaz de nos reconectar com aspectos sensíveis da subjetividade humana e na literatura como uma experiência de linguagem em que recriamos experiências, entrelaçamos o passado ao presente e imaginamos futuras possibilidades e perspectivas. A interpretação que fazemos do mundo e de textos literários é semelhante:  ao lermos um livro, confrontamos e somos confrontados por personagens e situações da vida ordinária de cada um de nós. Nos deslocamos. Saímos de nós e experimentamos ser outros.


Não estou romantizando. A literatura não pretende eliminar o mal, tornar a vida asséptica ou responder a todas as coisas. Na verdade, ela toca o obscuro, a complexidade da alma humana, seu conflito, seu desassossego. Não é remédio, não é modelo a ser reproduzido, não serve pra doutrinar, nem deixa ninguém bonzinho, quem dera. Mas ela nos apresenta uma linguagem diferente daquela cotidianamente automatizada, nos dá o prazer decifratório da leitura, exercita a nossa humanidade em oposição a um mundo robotizado, com algoritmos que limitam e pasteurizam nosso pensamento, além de eliminar o perigo de vivermos no entediante e desconectado (sim!) presente eterno das redes antissociais.


Entre Baleia e Orelha faltou a palavra humanidade. Somos uma espécie que evolutivamente sobreviveu e organizou sociedades mediante o uso da abstração e da linguagem e por meio delas criamos, planejamos, construímos, transformamos e transmitimos conhecimentos, fundamos uma civilização. A arte educa nosso olhar, nossa sensibilidade, nossa empatia, somos linguagem.


O uso indiscriminado de redes sociais está nos adoecendo, adoecendo nossas crianças, nos tirando a atenção e a capacidade de sentir. Minha sugestão é que olhemos atenciosamente os que amamos, que possamos acolher nossos filhos e educá-los para um mundo melhor, que estejamos abertos a conversas francas e que sempre que possível usemos o letramento literário nas escolas, dentro de casa, na vida, para especular, sentir, compreender (- nos) e, quem sabe ele até possa funcionar como um poderoso antídoto contra a crueldade e a falta de sentido que estamos experimentando em nossos dias.

 Era essa a história.

 

 

 
 
 

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